domingo, 30 de dezembro de 2007

A CASA

Pedro de Mendoza Queria escrever sobre as paredes da casa. Queria escrever com palavras que tivessem o peso das pedras. Se um dia escrevesse sobre a casa começaria com a frase “Era uma vez”, mas os poemas não podem começar com “era uma vez” porque não têm o tempo das pessoas. Queria escrever sobre a casa, contar toda a sua história desde o princípio do tempo até hoje e depois, no futuro. Mas os poemas hoje não contam histórias, não têm casas, paredes, quartos, portas, corredores, janelas que se abrem para o mundo e que protegem das estações, pessoas que as habitam. Era uma vez uma casa, uma casa agora velha, gasta, manchada pelo tempo, pela vida de pessoas, uma casa que se fez com os anos, que se foi metamorfoseando com as necessidades das pessoas que nela habitaram. Hoje a casa está só. Vazia, mas milhares de sonhos dormiram nos seus quartos, correram pelos corredores, cruzaram as suas portas, viram o acontecer do mundo através dos vidros das janelas. A casa que, em tempos idos, foi o centro de tudo. No início, a casa era uma capela de invocação a uma Santa Católica. A capela abençoava os laranjais. Os pomares. Houve um homem que mandou amanhar os campos, mandou construir o mirante no cimo do monte, de onde se avistavam os barcos e mandou erguer a capela, pedindo a Deus que lhe protegesse as colheitas. Daí a casa foi-se fazendo. Juntaram-se os anexos, as lojas, a cozinha, os quartos, salas, com o passar dos anos e das gerações, de avós para netos, de pais para filhos, de tios para sobrinhos, vinte, cinquenta, cem, trezentos anos. Hoje ela está só. A trepadeira que mandaram plantar quando nasceu a segunda filha da quinta geração e que cobria toda a fachada da casa de folhas verdes e castanhas, conforme as estações, está agora solta, fora do domínio dos jardineiros que a podavam com mãos sábias, cobriu todo o telhado, tapou as janelas, imiscuiu-se pelas frinchas e invadiu os quartos. Das paredes já só se vê a torre alta do lado sul. A casa que foi durante tantos anos um projecto de vida. O centro da existência de tantas pessoas, de tantas gerações. A casa era o pólo aglutinador da família, a força centrífuga. A força criadora e destruidora de tudo. A casa viveu nascimentos, sofreu com as mortes, fomentou amores, potenciou desavenças, ódios. A casa abandonada pelo riso das crianças, que corriam pelos corredores no jogo da apanhada, a memória imprecisa do tilintar de uma jarra partindo-se em estilhaços no chão. A casa é hoje apenas uma ideia do que foi no passado. A casa é hoje um nevoeiro onde habitam fantasmas. Uma ruína curvada pelo peso de vidas passadas, uma história contada nas rugas dos materiais, no pó. A coberto do manto desse passado está a vida silenciosa desse espaço que não fala por palavras nem por gestos, mas pelo passar dos dias e dos anos, inexoráveis. A casa é todo um universo. A casa é toda a ideia que se fez dela, as estórias que se contaram de um para outro, de tempo para tempo. Todo um desejo de eternidade cravado nas paredes. Um desejo de absoluto. Hoje a casa está só, sem ninguém, vazia de si mesma. O que fica das coisas sem vidas que as habitem?

sábado, 29 de dezembro de 2007

Arquitectura D’ouro / Paleta D’ouro



Foto: Ucanha - Concelho de Tarouca

Com o expoente máximo na Vila de Ucanha, a paleta de cores na arquitectura do Douro é impressionante. As quintas são pintadas em tons de cinzento (cinzento do xisto, branco da cal) ou ocre. Associado ao tabique, nos povoados dá-se uma verdadeira mas harmoniosa explosão de cor, com as esquinas, faixas e guarnições de madeira a serem pintadas de cores vivas, o mesmo sucedendo às chapas zincadas que recobrem o mesmo tabique. Por vezes a cor e a textura unem-se com agradáveis resultados, de que uma parede de xisto caiada é um exemplo.

Rafael Carvalho Dez/2007

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A Arquitectura Tradicional como fonte de inspiração da “Arquitectura Bioclimática”

Nos últimos anos tem-se assistido a uma escalada na subida do preço do Petróleo. Embora muitas vezes de forma não assumida, na tentativa de controlar esta fonte de energia têm-se assistido ao desenrolar de alguns conflitos no mundo.
Resultado da queima de combustíveis fósseis e do consequente efeito de estufa, as alterações climáticas estão na ordem do dia. Quioto veio precisamente colocar a mão na consciência do mundo ocidental. Nunca como na actualidade se consumiram tantos recursos para a manutenção do conforto a que nos habituámos e de que não queremos abdicar.
Numa tentativa de libertação do conceito de sociedade centrada no petróleo, o recurso às fontes alternativas de energia está na ordem do dia. Só muito recentemente se começaram a debater conceitos como o da “Arquitectura Bioclimática”.
A arquitectura bioclimática, tem como princípio fundamental a integração construtiva no contexto ambiental climatérico e biológico. A origem desta arquitectura está na arquitectura tradicional, baseada na ancestral arte de construir. Assim, os conceitos básicos são importados de uma época em que a inexistência de tecnologias de climatização e iluminação artificiais implicavam uma construção eficiente, optimizada para o local de implantação. As construções vernaculares, ao contrário de grande parte da arquitectura mais recente, não existem graças a abstracções formais a cujo processo de elaboração foi posteriormente atribuído um método construtivo. Na arquitectura vernacular, não se trata de aparência mas sim da existência. No vernacular estamos perante um artefacto físico que nele tem contida a continuada evolução tecnológica e social em que foi construído e desenvolvido. Uma espécie de herança genética. Quem, em pleno verão, já não se deliciou com a sombra fresca de uma ramada? Quem em pleno Inverno não se regalou com o conforto térmico emanado de uma vidraça?
Rafael Carvalho Dez/2007

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Livros Recomendados

Poucos autores se têm debruçado sobre a temática da Arquitectura Popular em Portugal. Ficam contudo aqui registados alguns dos livros que, relativamente a este tema, constituem uma referência a nível nacional. --------------------------------------------------------------------------------

Título: Arquitectura Popular em Portugal (2 Volumes) de João Afonso Editor: Associação dos Arquitectos Portugueses Ano de Edição: 2003 Formato: 28,5 x 22 N.º Páginas: 792 + Breve Descrição: «Só se ama aquilo que se conhece. É também de uma história de amor que este livro trata: amor pela paisagem, amor pelo território, amor pela arquitectura nascida deste chão duro e ruim, de que falou Miguel Torga e que Orlando Ribeiro tão bem compreendeu. É desse amor que tem de nascer a vontade de imaginar um futuro para o passado. E é talvez essa a principal mensagem deste livro, hoje.» Helena Roseta (Maio 2003)
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Título: Casas Portuguesas de Raul Lino Editor: Edições Cotovia Ano de Edição: 1992 Formato: 26,9 x 19,4 N.º Páginas: 160 + Breve Descrição: Raul Lino (1879-1974) passa a infância em Lisboa, a adolescência num colégio em Inglaterra e a juventude na Alemanha em estudos de artes decorativas e trabalha no atelier de Albrecht Haupt. Essas três épocas de formação terão constituído uma rara convergência de informações e influências, se tivermos presente que, nessa viragem de século, a Europa do Romantismo gerava os movimentos das várias «Artes Novas» e preparava o movimento moderno.Arquitecto, ilustrador gráfico, ceramista, concebeu também peças de porcelana, azulejos e artes decorativas. De entre a vasta obra construída podem destacar-se: Casa dos Patudos de José Relvas (Alpiarça)Jardim Escola João de Deus (Av. Álvares Cabral - Lisboa)Cinema Tivoli (Lisboa)Casa António Sérgio (Lisboa). --------------------------------------------------------------------------------

Título: A Arquitectura Popular Portuguesa de Mário Moutinho Editor: Editorial Estampa Ano de Edição: 1997 Formato: 14 x 20 N.º Páginas: 186
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Breve Descrição: Esta obra tem por objectivo proporcionar aos alunos do ensino secundário e superior o acesso a uma documentação representativa e de fácil consulta sobre a arquitectura popular portuguesa e renovar o interesse dos estudiosos e do público em geral sobre este tema suscitando, consequentemente, novas publicações.

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Título: Casas com Tradição de José Baganha Editor: Editora Caleidoscópio Ano de Edição: 2006 Formato: 29 x 25 N.º Páginas: 200 + Breve Descrição: «8 casas unifamiliares onde está presente a preocupação no ajustamento com o ambiente circundante. Com um texto do arquitecto Javier Cenicacelaya, de Bilbau.» ------------------------------------------------------------------------------- Título: Etnografias Portuguesas (1870-1970) Cultura Popular e Identidade Nacional de João Leal Editor: Dom Quixote Ano de Edição/ Reimpressão: 2000 N.º de Páginas: 276 Dimensões: 17 x 24 cm + Breve Descrição: Este livro explora a importância que tiveram no desenvolvimento histórico da etnografia portuguesa dois tópicos centrais: a) a cultura popular de matriz rural, como objecto fundamental de pesquisa; b) uma perspectiva interpretativa que fez desta um terreno estratégico para o tratamento de temas relacionados com a identidade nacional portuguesa. -------------------------------------------------------------------------------- Título: Arquitectura Tradicional Portuguesa de Fernando Galhano , Ernesto Veiga De Oliveira Editor: Dom Quixote Ano de Edição: 2000 Formato: 26,9 x 19,4 N.º Páginas: 376 + Breve Descrição: « A casa popular é um dos mais significativos e relevantes aspectos da humanização da paisagem, em que, na sua grande diversidade de tipos, afloram, com particular evidência, numerosos condicionalismos fundamentais - geográficos, económicos, sociais, históricos e culturais - das respectivas áreas e dos grupos humanos que a constroem e habitam.» -------------------------------------------------------------------------------- Título: Arquitectura de Terra em Portugal de Vários Editor: Argumentum Ano de Edição/ Reimpressão: 2005 N.º de Páginas: 300 Dimensões: 24 x 31 cm + Breve descrição: Com participação de 54 autores, o livro 'ARQUITECTURA DE TERRA EM PORTUGAL' reúne a colaboração de uma grande diversidade de profissionais ligados à Arquitectura e Construção com Terra. Abrangendo matérias desde a Tecnologia aos Materiais, da História à Antropologia, da Conservação à Investigação, a maioria dos domínios desta actividade são objecto de uma abordagem científica, que contempla os ofícios tradicionais, o ensino e a formação profissional. -------------------------------------------------------------------------------- Título: Arquitectura Popular dos Açores de vários Editor: Ordem dos Arquitectos Ano de Edição/ Reimpressão: 2000 N.º de Páginas: 560 Dimensões: 23 x 29 cm + Breve descrição: Um universo geográfico tão diferente gerou uma arquitectura vernácula sua. Os modelos de habitação que os colonizadores transportaram do território continental e de outros pontos do globo terão sido reinterpretados em função das condicionantes insulares, determinando formas e séries tipológicas originais. -------------------------------------------------------------------------------- Título: Arquitectura Popular da Madeira de Vários Editor: Argumentum Ano de Edição/ Reimpressão: 2002 N.º de Páginas: 354 Dimensões: 22 x 29 x 4 cm -------------------------------------------------------------------------------- Título: Portugal, arquitectura e sociedade de Carlos de Almeida Editor: Terra livre Ano de Edição: 1978 Formato: N.º Páginas: 120 + Breve Descrição: « ... Mas a quem olha um pano de parede rusticada de um casebre do Marão, por completo despercebido da humildade, da grandeza de ânimo e da ternura com que cada pedra ali foi amorosamente disposta, a quem assim se confessa alheio ao mistério da quase espontânea génese da arte, nada a arquitectura poderá dizer.»
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Título: Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro Editor: Edições João Sá da Costa Ano de Edição: 1993 Formato: 30 x 24 N.º Páginas: 224 + Breve Descrição: «Primeira obra de síntese, publicada por Orlando Ribeiro em 1945, serviu, mais do que qualquer outro dos seus trabalhos, um propósito de divulgação, quer condensando bibliografia vasta e pouco acessível ao comum dos leitores, quer as próprias investigações, especialmente aprofundadas no que respeita à vida rural e à expressão material e moral do País. Como noutros estudos do autor, os recursos de trabalho da Geografia e da História aparecem estreitamente associados: a primeira capta a expressão de paisagens, a segunda a génese e duração dos seus elementos» + De Orlando Ribeiro, “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, pelo interesse que encerra é mais um livro a acrescentar à lista dos meus recomendados. Só é verdadeiramente possível compreender a arquitectura tradicional se ela for devidamente enquadrada no meio histórico, geográfico, natural, económico e cultural em que se insere. Desse ponto de vista, este livro é sem margem para dúvida uma grande ajuda…
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Título: Portugal: Uma Janela para o Mundo
de Jaime Machado
Editor: Quidnovi
Ano de Edição: 2006
Formato: 28 x 28
N.º Páginas: 120
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Breve Descrição: « Uma viagem pelo Portugal de hoje e de outros tempos, através da imagem, é a proposta de Portugal: Uma Janela para o Mundo, livro que percorre o país de Norte para Sul, de Ocidente para Leste, mostrando o que de belo, títpico, inovador e único tem para mostrar a mais ocidental nação da Europa. Portugal: Uma Janela para o Mundo é acima de tudo um álbum de fotografias, útil para quem pretende ter uma visão geral de Portugal no arranque do século XXI, seja pela contemplação dos monumentos preservados seja pela observação das mais recentes obras de arquitectura, como a Casa da Música, no Porto, o Pavilhão de Portugal, em Lisboa, ou o premiado Estádio de Braga. Editado em quatro línguas - para além do Português, em Inglês, Espanhol e Francês.»
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Felicito a editora QuidNovi por ter publicado o Livro “Portugal: uma janela para o mundo”. Desde logo por colocar no mesmo plano, lado a lado, “taco a taco”, o património popular e o património erudito. Entre as quatro janelas da capa do livro, de cariz popular a primeira foi rebuscada na Aldeia de Cabril, conselho da Pampilhosa da Serra. Outra janela refere-se a uma igreja Românica não identificada. Entre elas também a mais famosa janela portuguesa, a janela Manuelina do Convento de Cristo, em Tomar. A última diz respeito a uma das janelas da Casa da Música, no Porto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Arquitectura D'Ouro, nasceu...

Foto: Magueija - Concelho de Lamego

Este blogue, acabado de criar, pretende ser um instrumento de divulgação da arquitectura tradicional da região duriense.

A seu tempo serão aqui reveladas algumas das preciosas fotografias que, sobre este tema, tenho em meu poder.

Para quem ama o Douro e o seu povo, também este será um espaço de partilha de experiências, de troca de ideias...

Rafael Carvalho/Dez 2007