segunda-feira, 27 de abril de 2009

Arquitectura vernácula na Curvaceira

Foto: Curvaceira, Lamego + Refere-se a fotografia a um núcleo de casas localizadas em Curvaceira, freguesia de Penajóia, concelho de Lamego. De características vernaculares, é mais um hino à arquitectura do tabique. O conjunto exposto encontra-se degradado e se nada for feito condenado a desaparecer, o que constituiria um verdadeiro atentado em pleno Douro - Património da Humanidade. Com o rio a correr a seus pés, Curvaceira foi em tempos idos terra de barqueiros, rabelos e barcas de passagem. O seu cais era ponto de embarque de vinho em direcção ao Porto. As barcas que daí partiam transportavam pessoas e bens para a Régua e Caldas do Moledo, na margem oposta, onde iam a banhos. Flanqueado por altos muros de xisto, vestígio desse tempo é também o estreito caminho que passa em Curvaceira e liga S. Gião ao rio, uma das vias por onde outrora desciam os produtos agrícolas vindos das terras altas e por onde poderão começar a subir os caminheiros, se entretanto alguém tiver a ideia de o transformar num percurso pedonal.
Rafael Carvalho / Abr2009

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Santo Adrião - Elegância e rudeza lado a lado.

Foto: Santo Adrião, concelho de Armamar. + Atente-se ao conjunto arquitectónico acima exposto. A casa da direita facilmente se enquadra na arquitectura popular nortenha. Assim, de semblante despretensioso, algo rude, com poucas aberturas ao exterior e sem qualquer reboco ou caiação, faz uso do granito e xisto como materiais de construção. O primeiro piso consta de uma loja para arrumações e abrigo do gado. Já o andar de sobrado é destinado às pessoas. Com a excepção da caiadela que é dada directamente sobre a pedra, a descrição anterior também serve para o edifício da esquerda. Porém, acrescente-se outro piso em tabique e uma varanda em ressalto sobre os andares inferiores. Repare-se ainda na policromia aí presente: branco da cal; negro dos soletos, amarelo e encarnado das guarnições em madeira. Um verdadeiro mimo. Estão denunciadas as origens geográficas de tão belo e diverso conjunto! Estamos no Douro, desta feita em Santo Adrião, concelho de Armamar.
Rafael Carvalho / Abr2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

«Arquitectura Popular Portuguesa» em Selo -17/20

Açoteias do Leste Algarvio – Selo 17 de 20 + A Arquitectura Popular está directamente ligada ao meio ambiente e assim, também em Portugal, de região para região se podem apontar características arquitectónicas específicas. +
Desenhado por José Luís Tinoco, este selo posto a circular a 15 de Março de 1988 retrata as AÇOTEIAS DO LESTE ALGARVIO. Com predomínio absoluto da cal branca são caracterizadas pelas suas bem trabalhadas chaminés e ainda pelos terraços preparados para o aproveitamento das águas pluviais - as açoteias.
Rafael Carvalho / Ago2008

sábado, 18 de abril de 2009

Oito Princípios de Orientação sobre a Conservação de Edificações Históricas

Foto: Ucanha, Tarouca
+ 18 de Abril - Dia internacional dos Monumentos e Sítios + Os seguintes princípios de orientação são declarações governamentais sobre a conservação das edificações históricas e baseiam-se nas cartas internacionais que foram estabelecidas durante o século passado. Estes princípios proporcionam uma base para a tomada de decisões respeitantes à boa prática na arquitectura de conservação, como em todo o mundo. Estes princípios explicam o “porquê” de todas as actividades de conservação e aplicam-se a todas as edificações do património e às suas envolventes.
+ 1. RESPEITO PELAS EVIDÊNCIAS DOCUMENTADAS : Não se deve basear o restauro em conjecturas. O trabalho de conservação deve ser baseado em documentação histórica, tal como fotografias históricas, desenhos ou evidências físicas. 2. RESPEITO PELA LOCALIZAÇÃO ORIGINAL : Os edifícios não devem ser movidos, a menos que não haja outro meio para os salvar. A localização é uma componente integrante de um edifício. A mudança de localização diminui consideravelmente o seu valor patrimonial. 3. RESPEITO PELO MATERIAL HISTÓRICO: Reparação / conservação – são preferíveis à substituição dos materiais de construção, excepto onde absolutamente necessária. Uma intervenção mínima mantém o conteúdo histórico do recurso. 4. RESPEITO PELA FÁBRICA ORIGINAL : Reparar com materiais idênticos. Reparar para reverter o recurso à sua condição anterior, sem lhe alterar a sua integridade. 5. RESPEITO PELA HISTÓRIA DOS EDIFÍCIOS : Não restaurar de acordo com um período, à custa de outro período. Não destruir as adições tardias de uma casa, para a repor em conformidade apenas com um só período. 6. REVERSIBILIDADE : As alterações devem estar aptas a serem revertidas às condições originais. Isto conserva as concepções e as técnicas construtivas originais. Por exemplo, quando um novo vão de porta é aberto numa parede de pedra, as pedras originais devem ser numeradas e armazenadas, permitindo um restauro posterior. 7. LEGIBILIDADE : O trabalho novo deve ser distinguível do antigo. As edificações devem ser reconhecidas como produtos do seu tempo, e as novas adições não devem confundir a distinção entre o novo e o velho. 8. MANUTENÇÃO : Com cuidados contínuos, não será necessário um restauro no futuro. Com uma manutenção corrente, podem ser evitados os grandes trabalhos de conservação e os seus elevados custos.
+ Para mais informações, por favor, ligar para a Heritage Properties Unit pelo número (416) 314-7137 (do Canadá). Esta publicação não está pendente de direitos de Autor e pode ser reproduzida sem penalidades. Agradece-se a aplicação dos normais procedimentos de crédito de autoria ,e relativamente ao Ministry of Citizenship, Culture and Recreation.
Tradução por António de Borja Araújo, eng.º civil I.S.T. 4 de Junho de 2003
Tradução obtida aqui

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fechadura de madeira

Foto: Santiago, Aveiro
+ Este post surge ainda no rescaldo da minha última mensagem, uma alusão ao palheiro - construção em madeira de pinho de apoio à salina aveirense. Pois é, o palheiro é totalmente construído em madeira, inclusive as fechaduras e respectivas chaves. De forma inteligente se evitam os estragos provocados pela corrosão do sal!
Rafael Carvalho / Abr2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Palheiro das salinas/marinhas aveirenses

Foto: Santiago, concelho de Aveiro
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Abandonando temporariamente o Douro, dirijo-me hoje a Aveiro, terra de sal, minha Terra Natal.
O palheiro das salinas aveirenses era uma casa rudimentar, de planta rectangular, edificada com tábuas de pinho, dispostas em escama horizontal. O telhado, inicialmente de bajunça (a) ou estorno (b), foi substituído por madeira, obedecendo ao mesmo esquema de aplicação das paredes. Posteriormente, passou a ser coberto por telha de canudo ou mesmo telha marselha, como no palheiro da imagem. Por vezes o palheiro ostenta, por cima da porta, o nome da marinha a que pertence.
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O chão de terra batida era coberto com bajunça ou junco. Actualmente alguns palheiros apresentam revestimento do solo com mosaico cerâmico. Ao longo dos tempos, a função primordial do palheiro foi o armazenamento dos instrumentos de salinagem. +
(a) Bajunça – Planta semelhante ao junco, que nasce nas margens e ilhas da Ria. Esta planta era utilizada na cobertura tradicional dos montes de sal, no fim da safra, a fim de os proteger da chuva.
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(b) Estorno – Planta que nasce em solo arenoso e que desempenha um papel primordial na fixação das areias das dunas.
Rafael Carvalho / Abr2009

sábado, 11 de abril de 2009

Mortórios D’Ouro – Imagens D’Ouro.

Foto: Mortórios D’Ouro +
Ainda na sequência da minha última mensagem -“Descida ao Douro, descida ao paraíso…”-, apresento mais algumas imagens dos mortórios D’Ouro bem como dalgumas das suas plantas mais características.
Foto: Figueira
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Foto: Funcho
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Foto: Flor de esteva
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Foto: Flor de rosmaninho
+ Foto: mortórios D’Ouro
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Foto: Flor de esteva
+ Foto: Fruto do lodão
+ Foto: flor do salgueiro
+ Foto: flor da cornalheira
+ Foto: flor da urze
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Rafael Carvalho / Abr2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Descida ao Douro, descida ao paraíso…

Foto: Mortórios D’Ouro + “Descida ao paraíso…”, estranho título este, quando o normal é subir ao paraíso! Desce-se sim, mas normalmente às profundezas do inferno! Passo a explicar. Fins de Março, princípios da Primavera. Habitando no planalto duriense, desci ao Douro. Como curiosidade diga-se que maioria das povoações durienses tiveram a sua fundação no planalto, diz-se que para evitar as sezões, forma de paludismo outrora frequente junto ao rio. Durante séculos a grande romaria ao Douro foi feita pelo Outono, onde as rogas - ranchos de pessoas vindas das serranias - aí confluíam para as vindimas. Nesta altura do ano porém, o motivo que me levou ao Douro foi outro. Desci ao Douro para os lados de Santo Adrião, concelho de Armamar, para contemplar o despontar da natureza, onde ela é pródiga, farta e generosa… Ao contrário das serranias circundantes, o vale do Douro possui clima mediterrânico, com toda a riqueza florística e faunística que lhe está associada. Porém, a biodiversidade que lhe é reconhecida também tem origem antrópica. Nos finais do século XIX toda a região foi devastada pela filoxera, praga que dizimou a quase totalidade das vinhas aí existentes. Foi um período de fome que motivou o abandono de aldeias inteiras, de que a aldeia do Pai Calvo bem perto de Santo Adrião é apenas um exemplo. Transformaram-se em ermos grande parte das quintas. Em solos produzidos e enriquecidos pelo homem, os matos ocuparam o lugar da vinha. Assim se formaram os chamados “mortórios”, uma alusão à devastação foloxérica. Os matagais assim formados são biologicamente mais ricos e evoluídos que os precedentes.
+ Voltando à minha descida ao Douro, na região a floração e o despontar de novos rebentos conferem à paisagem uma variada paleta de cor. Os rebentos da cornalheira, planta aparentada do pistáchio, inundam a paisagem de rubro. O rubro da cornalheira contrasta com o verde ainda ténue das folhas recém-formadas do lodão, do freixo, do carvalho português, do sumagre, do salgueiro ou mesmo da figueira. Aqui e ali o verde maduro do pinheiro bravo, da era, da gilbardeira, do loureiro, do carrasco, do sobreiro, do lentisco, do medronheiro, do zambujeiro e do zimbro. Também contribui para a diversidade cromática a cândida floração da esteva, do pilriteiro, do sargaço e da urze, a púrpura floração do rosmaninho, a violeta do alecrim, da vinca e do jacinto dos campos ou a dourada floração do tojo e do narciso. Mais para a frente no tempo, despontarão as flores do Estêvão, do trovisco e da madressilva. Entre as árvores despontam o espargo, a abrótea e algumas orquídeas selvagens, entidade desconhecida para a maioria dos cidadãos.
+ No seio dos matos durienses as árvores têm o privilégio de morrer de pé. Os seus esqueletos descarnados, refúgio para a vida animal, contribuem para a harmonia do conjunto. Os mortórios durienses são repositórios de biodiversidade. Desci ao Douro, observei, senti. No meio dos mortórios os meus olhos viram o paraíso…
Rafael Carvalho / Abr2009

domingo, 5 de abril de 2009

Rosados Soletos

Foto: Lamego
+ A arquitectura tradicional duriense encerra em si uma grande diversidade. Diversidade de materiais (xisto, granito, cal, madeira, chapa, ardósia, tabique, ferro, vidro…), mas também diversidade cromática, inerente aos próprios materiais que usa ou induzida através da pintura. A imagem que hoje apresento refere-se a uma habitação localizada em Lamego. Como em muitas das outras casas da região, usou o tabique como técnica construtiva. O frágil tabique apresenta-se neste caso revestido a soletos de ardósia. Os soletos protegem o tabique da água da chuva sendo contudo permeáveis ao vapor da água. Assim sabiamente se previne a humidade. A propósito da diversidade cromática duriense, contemple-se a imagem e delicie-se o leitor com os soletos caiados em tons de rosa. Numa alusão a Raúl Lino, grande arquitecto português, digo que possuem uma “tonalidade que lembra o aspecto apetitoso dos alperces maduros”.
Rafael Carvalho / Abr2009

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Velha madeira em velha porta...

Foto: Armamar + Tão velha é a madeira que mesmo sem lhe tocar sinto o contorno das suas rugas.
Rafael Carvalho / Abr2009