terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aldeias Sonoras

Texto e imagem obtidos aqui
+ "O mundo rural português está a despovoar-se e, com ele, vai paulatinamente morrendo uma cultura tradicional e uma relação particular com a paisagem e seus usos. À semelhança de outros países europeus, assiste-se a um processo de pós-ruralização, com implicações em diversos domínios: económico, psicológico, social, cultural. Estas transformações formam uma malha complexa e sobreposta de realidades. Não existe um antes e um depois. As formas ancestrais de viver o rural (ainda) coexistem com novos usos da paisagem, com novas actividades e prioridades, muitas delas ligadas a uma dimensão ociosa. Perante este cenário, existe hoje um imperativo de defesa e documentação de realidades paisagísticas rurais, para além da perspectiva ambiental em sentido estrito. A paisagem enquanto sobreposição de elementos naturais de fauna, flora e geologia, mas que inclui também elementos de intervenção humana, sejam arquitectónicos, agrícolas, saberes, utensílios, etc. Uma realidade que abrange todas as dimensões da paisagem é a acústica. Quais os sons que a nossa paisagem rural incorpora? Quanto deles já desaparecerem irremediavelmente? Estamos habituados a olhar o mundo que nos rodeia, mas quanto tempo nos dedicamos a escutar a “música” da paisagem? O que podemos aprender acerca das comunidades rurais através da dimensão sonora? Hoje em dia existe uma consciencialização crescente para a necessidade de defender, estudar e documentar o património sonoro, de tal forma que existem estudos de ecologia sonora e algumas áreas geográficas (como a região autónoma da Galiza) incluem a dimensão sonora no âmbito do seu património imaterial autóctone. É com este contexto presente que surge o projecto “Aldeias Sonoras”. “Aldeias Sonoras” é um projecto educativo da associada Binaural/Centro de Residências Artísticas de Nodar, coordenado por Luís Costa, de mapeamento sonoro de zonas rurais portuguesas, em paralelo com o seu levantamento geográfico, histórico e sócio-cultural. O projecto envolverá escolas básicas e secundárias de zonas rurais de diversas regiões de Portugal, começando uma fase-piloto nos anos de 2009 e 2010 na zona de S. Pedro do Sul e da Serra do Montemuro, pela sua proximidade ao Centro de Residências Artísticas de Nodar (S. Pedro do Sul) e pelo conhecimento profundo que os autores do projecto têm da sua diversidade paisagística e humana. O projecto pretende evidenciar a riqueza sonora do mundo rural português e a necessidade de o registar, envolvendo crianças e jovens nessa descoberta, promovendo em paralelo o sentido de identidade, de diversidade e de orgulho em viver no campo. “Aldeias Sonoras” envolverá uma série de módulos de aprendizagem teórico-prática, com o objectivo de dotar os alunos de conhecimentos de tecnologias de registo e edição de sons, utilização de blogs para a organização e distribuição de informação, associando cada etapa do projecto a diversas disciplinas curriculares (nas áreas da arte, história, cidadania, geografia, tecnologias de informação, etc.)."
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Organização:

sábado, 26 de dezembro de 2009

Leomil – pérola arquitectónica por terras da Beira

Figura 1 – habitação serrana
+ Localizada no sopé da homónima serra, Leomil, concelho de Moimenta da Beira, é terra de latoeiros. Bem junto de um majestoso pelourinho, um dos maiores que conheço, esta povoação possui um belo e arborizado largo. A ocupação humana na zona é milenar, como atestam as diversas antas dispersas na serra. Também por aqui passaram muçulmanos e Godos. Leomil encanta sobretudo pela diversidade arquitectónica que encerra. Edifícios de feição popular (figuras 1 e 3), coabitam com outros de cariz erudito (figura 2). Em Leomil encontram-se as casas solarengas dos Bandeiras, Mergulhões, Coutinhos, Sarmentos e Balsemões.
Figura 2 – solar
+ Leomil estabelece a ponte entre dois mundos - Serra e Douro. Casas rudes (figura 1) construídas com paredes que usam exclusivamente junta seca, sem qualquer argamassa, lado a lado com o mais fino exemplar da arquitectura do tabique (figura 3). Nova156 - HPIM5394a
Figura 3 – habitação que recorre ao tabique
+ Leomil – pérola arquitectónica? Sem dúvida! Ponto de encontro de diferentes culturas, merece a visita de quem, tal como eu, se preocupa com estas coisas do património. Património construído mas também património natural. Bem perto de Leomil é possível observar, sentir e tactear o monumental castanheiro de Beira Valente. Na serra de Leomil o amante da natureza ainda consegue ouvir o uivo do Lobo Ibérico, limite sul da sua distribuição. Quem deseje pernoitar em Leomil, tem ao seu dispor os “Moinhos da Tia Antoninha”, excelente empreendimento de turismo no espaço rural.
Rafael Carvalho / Nov2008

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Lamego – caminhos renovados.

Foto: Bairro do Castelo, Lamego
+ Devolver a dignidade às zonas históricas passa obrigatoriamente pela recuperação de equipamentos e espaços públicos. Nesse campo, a renovação de estradas e caminhos marca profundamente a intervenção feita.
Rafael Carvalho / Dez2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Explosão de cor em Lamego

Foto: Lamego - zona histórica.
+ A paleta de cores na Arquitectura D’Ouro sempre me impressionou. A profusão de cores está intimamente associada ao uso do tabique enquanto método construtivo. O tabique nalguns casos é rebocado e nessa situação a cor pode preencher a totalidade da fachada onde foi aplicado. Situações contudo há, nomeadamente quando o tabique é revestido a lousa, telha ou chapa, em que apenas as varandas, janelas, portas e respectivas molduras de madeira são garridamente pintadas. Dizem que o abuso da cor serve para afastar as más influências.
Rafael Carvalho / Dez2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Quelho em Lamego

Foto: Lamego
+ Lá mais para cima, o quelho da imagem dá acesso ao “Bairro do Castelo”, em Lamego. Não permitindo o trânsito automóvel, as casas que ladeiam o quelho correm o risco de serem abandonadas. Pergunto-me quanto belo terá sido nos seus tempos áureos! Imagino a casa da imagem devidamente caiada. Penso como resplenderia o revestimento rubro do tabique que coroa o edifício...
Rafael Carvalho / Dez2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sinais de Vida

Foto: Bairro do Castelo, Lamego Acostumado a vaguear por muitas das nossas aldeias, habituei-me a interpretar os mais pequenos sinais. Caixas de correio a abarrotar com correspondência não endereçada ou improvisados cadeados a lacrar uma porta, são mais do que evidentes pistas de abandono. Fumo a sair da chaminé, um rádio ligado, um cão a ladrar ou mesmo um simples estendal com roupa a secar, como o da imagem, são claros sinais de vida, aquilo que mais aprecio num passeio matinal.
Rafael Carvalho Dez/2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Azahar, ou a Sorte do Lince Ibérico - Grande reportagem TSF

Lince Ibérico – foto extraída do blogue http://blog.terramater.pt/.
+ O nosso património natural sempre me fascinou. Por influência do meu pai, e também aqui o pretendo honrar, sempre senti o peso da responsabilidade que temos em deixar aos nossos filhos um mundo se não melhor, pelo menos igual ao que encontrámos. Pela acção do homem, temos assistido e lamentado a extinção de muitas espécies: o enigmático Dodó das Ilhas Maurícias; o Tigre da Tasmânia; a Moa da Nova Zelândia; … Como foi possível termos permitido que tal tivesse ocorrido?! Embora num passado relativamente recente, estas extinções ocorreram contudo antes de termos nascido, num contexto geográfico diferente do nosso. Acontece que na nossa ibéria temos (ainda) o Lince Ibérico, tão-somente o felino mais ameaçado do mundo! Existem apenas cerca de 250 Linces Ibéricos em liberdade! Ainda há poucas décadas eram organizadas no nosso país batidas ao lince, considerado na altura como animal daninho!
+ SE O LINCE IBÉRICO APENAS EXISTE NA NOSSA IBÉRIA, CABE-NOS A NÓS EVITAR A SUA EXTINÇÃO.
+ Durante 10 meses a TSF acompanhou as várias etapas de um processo que terminou em 2 de Dezembro último, com a chegada dos últimos linces ibéricos cedidos por Espanha ao Centro de Reprodução em Cativeiro de Silves. O próximo desafio será a reintrodução no habitat natural...
Desgraçadamente e vergonhosamente, o Centro de Reprodução do Lince Ibérico em Silves não foi uma acção altruísta do povo português, foi antes uma imposição da União Europeia como contrapartida da construção da barragem de Odelouca, no Algarve. Da autoria de Ângela Braga com sonoplastia de Luís Borges, com a duração de apenas 6 minutos, "Azahar, ou a Sorte do Lince Ibérico" é uma grande reportagem TSF. Veja o vídeo AQUI.
Rafael Carvalho / Dez2009
Informações adicionais sobre o Lince Ibérico em http://linceiberico.icnb.pt/homepage.aspx.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nossa Sra. do Socorro

Foto: Bairro do Castelo, Lamego + A avantajada imagem (perdoem-me a má educação), representa a N. Sra. do Socorro. O painel encontra-se afixado no Bairro do Castelo, em Lamego. Se não fossem as suas proporções, certamente não lhe tinha dado grande importância.
Rafael Carvalho / Dez2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

Chapa zincada – nobre material!!!...

Foto: Bairro do Castelo, Lamego
+ Rés-do-chão em pedra, primeiro andar em tabique, desta feita revestido a chapa garridamente pintada. Eis mais um exemplar “puro” da arquitectura vernácula alto-duriense. Durante muitos anos, a ardósia teve a exclusividade no revestimento de tabiques. A introdução da chapa para o mesmo fim, parece inicialmente não ter sido pacífica. A chapa, alvo a abater no passado, é hoje para mim, na Arquitectura D’Ouro, um dos mais nobres materiais.
Rafael Carvalho / Dez2009

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Enraizamento

Foto: Lamego
+ Para quem julga que pode viver sem o precedente, para quem vê na tradição um alvo a abater, para quem despreza a cultura local e venera a niveladora globalização, recomendo uma leitura atenta ao poema “Enraizamento” da filósofa francesa Simone Weil (1903-1943). + Seria fútil afastarmo-nos do passado e só pensarmos no futuro. Já é perigoso e ilusório acreditar que tal possibilidade existe. + A oposição entre futuro e passado é absurda. O futuro nada nos traz, nada nos dá. + Somos nós que, para o construir, temos de dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. + Mas para dar é preciso possuir, e não possuímos outra vida, outra seiva, que não sejam os tesouros herdados do passado por nós digeridos, assimilados, recriados. + De todas as necessidades da alma humana, não há nenhuma mais vital do que o passado. + Excertos de L'enracinement, Éditions Gallimard, Paris, 1950.
Rafael Carvalho / Dez2009