sábado, 30 de janeiro de 2010

Explosão de cor na “Beira-Mar” (II)

Foto: Beira-Mar / Aveiro Mais uma casa intensamente colorida … Rafael Carvalho / Jan2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Azulejo de Aveiro - policromia e luz

Foto: Eixo - Aveiro
Foto: Beira-Mar / Aveiro
Foto: Beira-Mar / Aveiro
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Recobrindo fachadas com motivos pura e simplesmente geométricos ou em painéis com motivos etnográficos, históricos, religiosos, figuras populares ou comerciais, o azulejo constitui uma imagem de marca na região de Aveiro. Parece que os primeiros azulejos existentes nesta cidade remontam ao séc. XV, de que ainda restarão alguns exemplares no Convento de Santa Joana. Da autoria de Manuel Ferreira Rodrigues, relativo ao azulejo de Aveiro, o texto que a seguir transcrevo foi publicado no Blogue “João Pedros Dias’Blog” em Maio de 2004. + “…Mas é o azulejo que dá a toda a região de Aveiro uma personalidade bem vincada. Sobretudo o azulejo de finais de Oitocentos e das primeiras décadas do século das grandes guerras. Azulejo semi-industrial das fábricas de Aveiro. Azulejo de estampilha. De mil cores. De mil padrões. É o azulejo de fachada que dá à cidade uma riqueza cromática única. Caleidoscópica. De manhã, ou ao fim da tarde, a luz do sol esmaga-se estrondosamente contra as fachadas de azulejos, desmaterializando-as, esventrando-as, num espectáculo de revérberos brancos ou cores incendiadas. É também um património ameaçado. Porque é frágil. Demasiado frágil. Porque anda no ar um certo espírito novo-rico, ignorante e provinciano. Dissipador. Capaz de vender a alma ao diabo por um brilhozinho dourado de pechisbeque. O palacete do «brasileiro» Sebastião de Carvalho Lima – pai do escritor Jaime de Magalhães Lima e de Sebastião de Magalhães Lima, dirigente republicano e Grão-Mestre da Maçonaria portuguesa – foi o primeiro edifício da cidade a ter a fachada revestida de azulejo. (Hoje é sede da Associação de Municípios de Aveiro.) Estávamos em 1857. No ano seguinte, no Campeão do Vouga, segundo periódico local aveirense, pode ler-se: «Agora começou a moda do azulejo. Há um ano, não havia uma casa que o tivesse. Os proprietários contentavam-se com pinturas a cola. Apenas apareceram os primeiros azulejos na casa do Sr. Sebastião de Carvalho Lima, ao Carmo, todos quiseram pôr azulejo». Dez anos depois, a fachada da igreja da Misericórdia vestia-se de azulejo azul e branco estampilhado, fabricado também no Porto e aplicado por operários da Cidade Invicta. Até então, o azulejo recobria apenas o interior de igrejas e de palácios. Nos anos seguintes assistiu-se a uma profunda alteração da paisagem urbana. O azulejo protege e embeleza as frustes fachadas das casas, nomeadamente as que se ergueram com materiais pobres. O azulejo transfigura a arquitectura e valoriza a composição dos alçados pela força dinâmica das suas composições, pelos surpreendentes efeitos visuais dos seus padrões. E sem o azulejo a cidade não teria a delicada luminosidade cromática que a singulariza. É também o azulejo que distingue as manifestações arquitectónicas Arte Nova de Aveiro das demais. Manifestações artísticas epidérmicas, híbridas, de forte efeito cenográfico, que favorecem fachadas tipologicamente banais, mercê das potencialidades cromáticas, do brilho e da luz intensa do azulejo. É extraordinário que uma pequena cidade de província, escassamente urbanizada e industrializada, no início do século XX, detenha ainda um surpreendente conjunto de edifícios com decoração diversamente filiável na Arte Nova. Esse fenómeno ter-se-á ficado a dever, antes de mais, ao azulejo. Apesar do muito que já se perdeu, os painéis figurados de azulejos, em tons azuis, a maioria das três primeiras décadas de Novecentos, tem resistido melhor à usura do tempo e à cegueira dos homens. Neles, a cidade desnuda-se. Auto-retrata-se. As temáticas e as técnicas testemunham sensibilidade e um olhar atento aos movimentos artísticos que se sucediam. Caro visitante, depois dos encantadores painéis da estação do caminho-de-ferro, onde os pintores da Fábrica da Fonte Nova, Francisco Luís Pereira e Licínio Pinto, pintaram postais e fotografias de temas regionais, proponho-lhe que vá ao Parque do Infante D. Pedro. Delicie-se com o verismo fotográfico daquelas figuras femininas, que nos olham sorridentes há perto de um século, com a beleza ecléctica das cercaduras. Pelo caminho, certamente não deixará de se admirar com o sincretismo da composição e o apuro técnico dos belos postais alusivos às quatro estações, na Rua Manuel Firmino, com os magníficos rosas e verdes da fachada arte nova da Rua João Mendonça, com os painéis-cartazes publicitários da antiga Sapataria Leitão, com a monumentalidade dos azulejos que revestem a Casa das Zitas, na Praça Marquês de Pombal. Os percursos possíveis são muitos. Nas últimas duas décadas, alguns dos melhores artistas vivos da cidade deram continuidade a essa tradição. Com a assinatura de Vasco Branco, Cândido Teles, Jeremias Bandarra e José Augusto, aos poucos, aqui e ali, têm surgido painéis de azulejos de uma beleza extraordinária. Com outras técnicas. Com outras cores. Ao ceramista Vasco Branco, que também é escritor e cineasta, ficaremos em dívida eternamente pelos magníficos painéis da Praça da República e do Viaduto Aveiro-Esgueira. Beleza e monumentalidade. Esteja atento, caro visitante. Não se fie em guias turísticos e quejandos. Vá pelo seu pé. Vá com os sentidos despertos. Descubra por si. Percorra a cidade, rua a rua, e palmilhe as freguesias circunvizinhas. Dê uma saltadinha a Ílhavo e a Ovar. Será recompensado.”
Rafael Carvalho / Jan2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

Aveiro - palheiros do Sal do Canal de São Roque

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O mar e a Ria conferem à cidade de Aveiro um conjunto de especificidades que a tornam única no quadro urbano nacional. Uma das especificidades prende-se com a secular exploração de sal que esteve na origem do povoamento aveirense. Quais janelas espelhadas, mantenho permanentemente as salinas no meu imaginário. O sal produzido é armazenado em montes cónicos. Para evitar a exposição à chuva com consequente dissolução do sal, os montes eram inicialmente cobertos com junça ou bajunça (gramínea abundante na região) e terra arrelvada. A era do plástico revolucionou a cobertura. A forma contudo mais eficaz de armazenar o sal é no interior dos palheiros, construções de madeira como as da imagem.
Os palheiros expostos localizam-se no “Cais de S. Roque”, durante muito tempo o centro do comércio do sal em Aveiro. De planta rectangular e empena sobre a rua, os palheiros do Cais de S. Roque possuem telhados de duas águas. O tabuado, pintado a vermelhão, vê-se disposto na horizontal.
Vindos das salinas, em miúdo perdia horas a apreciar a azáfama dos barcos salineiros a atracar e a partir. Como formigas num carreiro, dos barcos e em direcção aos palheiros, o sal era transportado em canastras à cabeça dos estivadores descalços.
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+ Enquanto alguns palheiros definham, outros, como o da imagem agora exposta, são convertidos em locais de restauração e convívio. Algumas das novas construções do cais, não sei se por imposição camarária ou por vontade dos donos, são reinterpretações desta forma de construir. O «Conjunto de Armazéns do Sal do Canal de São Roque» encontra-se em "Vias de Classificação" pelo IPPAR. A Universidade de Aveiro realizou um congresso dedicado ao sal, com vista à elevação do salgado a património. Procura também estudar a viabilidade da recuperação de toda a estrutura constituinte da indústria do salgado da Ria de Aveiro, de que os palheiros fazem parte.
Rafael Carvalho / Jan2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Arquitectura vernácula da Beira Litoral

Foto: Quinta do Loureiro, Aveiro +
O espécime da imagem localiza-se na Quinta do Loureiro, povoação do concelho de Aveiro. Pertence a um modelo arquitectónico que durante décadas serviu de base à construção em grande parte da Beira Litoral, especialmente entre os rios Vouga e Mondego. Casa rural construída em adobe , à face com o caminho, da fachada destaca-se a porta-carral. Este elemento permite o acesso do carro de bois ao pátio localizado nas traseiras do edifício. O pátio, centro da vida agrícola, é limitado pela habitação, corrais, galinheiros, celeiros e demais dependências agrícolas. Este tipo de casa-pátio tem remota filiação na arquitectura árabe ou mesmo romana, que recorre a espaços organizados em planta centrada, abertos para o interior. Tal como em muitas outras edificações da região, o presente exemplar encontra-se revestido a azulejo, havendo contudo outros exemplares simplesmente rebocados e caiados. Janela/porta/janela -- porta-carral, constitui o modelo de habitação térrea mais simples existente na região. Subsistem no entanto variantes com mais janelas e/ou portas, consoante o número de divisões interiores e o poder económico do proprietário. Por debaixo de cada janela, ampliando a imagem, é possível observar os orifícios de ventilação do soalho. As molduras das portas e janelas, desenhadas superiormente em arco, são lavradas em granito. Mais ao sul, para o mesmo efeito é usado o calcário – a conhecida e reconhecida “Pedra Ança”. Suportado por asnas de madeira, este tipo de construção possui telhado de duas águas, em telha marselha, rematado no beiral com telha de canudo. Sob o beiral, em todo o comprimento, a casa da imagem possui um friso em azulejo. Os frisos são elementos decorativos muito comuns na região, sendo por vezes pintados directamente sobre o reboco. Os frisos podem ou não possuir relevo. Na fachada da figura, um rodapé cinzento faz a transição com o chão. O rodapé, pintado ou em granito, está quase sempre presente nas casas deste tipo. Infelizmente já não é fácil encontrar exemplares representativos deste modelo arquitectónico em tão bom estado de conservação como o da gravura. Falta sensibilidade para a preservação deste património que é visto com indiferença pelos particulares, autarquias e demais instituições. A destruição do património arquitectónico civil da Beira Litoral e a sua substituição por tipologias de proveniência duvidosa e desproporcionada, adultera e fere a paisagem povoada. Qual espécie animal ou vegetal em vias de extinção, se não forem tomadas medidas em breve não restará um único exemplar de pé. É pois desejável que se conjuguem esforços no sentido de preservar pelo menos os mais significativos exemplares desta humilde, bela e funcional arquitectura.
Rafael Carvalho / Jan2010 Para saber mais sobre a casa tradicional da zona litoral central, consultar: "Arquitectura Tradicional Portuguesa"
de Fernando Galhano , Ernesto Veiga De Oliveira
Dom Quixote, edição 2000

domingo, 17 de janeiro de 2010

Calçadas de Aveiro - Rendas de Pedra

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Calçada: “s. f. caminho ou rua com pavimentação de pedra” - in Dicionário de Língua Portuguesa; 5ª Edição - Porto Editora. + Lavradas em pedra calcária branca ou negra, desde miúdo que as calçadas da cidade de Aveiro me encantam, fascinam e enfeitiçam. Exercem sobre mim algum poder, mas eu, conscientemente submisso, não me incomodo. Os motivos presentes algumas vezes são puramente geométricos. A forte identidade regional leva contudo à inclusão de motivos que aludem ao mar e à ria: barcos da arte chávega, moliceiros, âncoras, conchas, caranguejos, peixes, estrelas-do-mar… Aveirense de nascimento, passeio frequentemente orgulhoso sobre um extenso e surpreendente tapete de calcário branco e preto. Calçadas de Aveiro, rendas de pedra.
Rafael Carvalho / Jan2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Explosão de cor na "Beira-Mar"

Foto: "Beira-Mar" - Aveiro
+ A fotografia com que ilustro o presente post, inaugura uma sequência de imagens dedicada a Aveiro, minha terra Natal. Localizada na “Beira-Mar”, a escolha não foi inocente. Desde logo porque o conjunto, prenhe de cor, qual pavão sacudindo o leque, qual carioca abanando a bunda, nos entra pelos olhos adentro. Outro aspecto que motivou a escolha prende-se com a presença de água, indissociável da zona em que o conjunto arquitectónico se situa. E lá estão as omnipresentes embarcações… Mais há mais! Se há roupa estendida há vida, pessoas que enchem as casas. E que bom ver as casas ocupadas!…
Rafael Carvalho / Jan2010

domingo, 10 de janeiro de 2010

TSF – Raul Lino nos “Encontros com o património”

Foto Extraída de: http://media.photobucket.com/image/raul%20lino%20cipreste/nop57751/Arquitectura/Raul%20Lino/CiprestePlanta.jpg + Na emissão dos Encontros com o Património, visitamos, em Sintra, a Casa do Cipreste, de Raul Lino. Para nos falarem da obra e da acção deste mestre do habitar e das artes decorativas, em Portugal, no século XX, convidamos os arquitectos Diogo Lino Pimentel e Rui Ramos, a historiadora de arte Maria do Carmo Lino e Martinho Pimentel.” + Dedicado a Raul Lino e emitido no dia 9 de Janeiro de 2010, eis as palavras de apresentação do programa TSF “Encontros com o património”.Com a duração de 45 minutos, o programa completo poderá ser escutado na íntegra aqui.
Rafael Carvalho / Jan2009

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porta colorida em Leomil

Foto: Leomil, Mta. da Beira
+ Emoldurada em granito, a porta da imagem encanta. Encanta pela patente assimetria, encanta também pela madeira de que é feita. Fascina pelo pormenor da entrada do gato. Porém, o verdadeiro feitiço resulta da sua cor, amarelo, qual pavão abrindo o leque!...
Rafael Carvalho / Nov2008

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Roupa estendida...

Foto: Leomil, Mta. da Beira + Se há roupa estendida, há vida, há gente!...
(…) Como diz Villaret, a roupa na janela é um retrato dos seus proprietários. Se por acaso vemos uma camisola de futebol, percebemos que o filho mais velho vai jogar futebol (…). Se vemos um alinhamento de peúgas esburacadas, descobrimos que não existe uma avó que se dedique à nobre tarefa de passajar a roupa. Se surgem camisas de dormir com formas voluptuosas, damo-nos conta da turbulência libidinal que vai por aquela casa. Se vemos um xaile preto, cheira-nos a fado. Se vemos umas calças de ganga cheias de tinta branca, compreendemos que o pai trabalha na construção civil. Se vemos uma farda reluzente, ficamos a saber que há guarda republicano nas imediações. Se existe uma farda de bombeiro, sentimos o odor a fogo na floresta. Se vemos um conjunto de meiinhas cor-de-rosa, avançamos com a hipótese de o bebé ser menina. (…) (…) E deste modo ficas a conhecer a vida quotidiana daquela família, os membros que a compõem, a sogra que vem passar duas semanas (…).
Eduardo Prado Coelho / in Nacional e Transmissível
Rafael Carvalho / Jan2009

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Rudeza? Grosseria? Não!

Foto: Leomil, Mta. da Beira
+ Pedra e mais pedra, vinda certamente da serra ao lado. Gosto da telha caleira e também do número que encima a porta. Gosto da moldura granítica que define a entrada. Rudeza? Grosseria? Não! A imagem tem cor e a cor é delicada… Agrada-me a gravura acima exposta e por isso a quero partilhar.
Rafael Carvalho / Jan2010