Foto: Quinta do Loureiro, Aveiro
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O espécime da imagem localiza-se na Quinta do Loureiro, povoação do concelho de Aveiro. Pertence a um modelo arquitectónico que durante décadas serviu de base à construção em grande parte da Beira Litoral, especialmente entre os rios Vouga e Mondego.
Casa rural construída em adobe , à face com o caminho, da fachada destaca-se a porta-carral. Este elemento permite o acesso do carro de bois ao pátio localizado nas traseiras do edifício. O pátio, centro da vida agrícola, é limitado pela habitação, corrais, galinheiros, celeiros e demais dependências agrícolas.
Este tipo de casa-pátio tem remota filiação na arquitectura árabe ou mesmo romana, que recorre a espaços organizados em planta centrada, abertos para o interior.
Tal como em muitas outras edificações da região, o presente exemplar encontra-se revestido a azulejo, havendo contudo outros exemplares simplesmente rebocados e caiados.
Janela/porta/janela -- porta-carral, constitui o modelo de habitação térrea mais simples existente na região. Subsistem no entanto variantes com mais janelas e/ou portas, consoante o número de divisões interiores e o poder económico do proprietário.
Por debaixo de cada janela, ampliando a imagem, é possível observar os orifícios de ventilação do soalho. As molduras das portas e janelas, desenhadas superiormente em arco, são lavradas em granito. Mais ao sul, para o mesmo efeito é usado o calcário – a conhecida e reconhecida “Pedra Ança”.
Suportado por asnas de madeira, este tipo de construção possui telhado de duas águas, em telha marselha, rematado no beiral com telha de canudo.
Sob o beiral, em todo o comprimento, a casa da imagem possui um friso em azulejo. Os frisos são elementos decorativos muito comuns na região, sendo por vezes pintados directamente sobre o reboco. Os frisos podem ou não possuir relevo.
Na fachada da figura, um rodapé cinzento faz a transição com o chão. O rodapé, pintado ou em granito, está quase sempre presente nas casas deste tipo.
Infelizmente já não é fácil encontrar exemplares representativos deste modelo arquitectónico em tão bom estado de conservação como o da gravura. Falta sensibilidade para a preservação deste património que é visto com indiferença pelos particulares, autarquias e demais instituições.
A destruição do património arquitectónico civil da Beira Litoral e a sua substituição por tipologias de proveniência duvidosa e desproporcionada, adultera e fere a paisagem povoada. Qual espécie animal ou vegetal em vias de extinção, se não forem tomadas medidas em breve não restará um único exemplar de pé. É pois desejável que se conjuguem esforços no sentido de preservar pelo menos os mais significativos exemplares desta humilde, bela e funcional arquitectura.
Rafael Carvalho / Jan2010
Para saber mais sobre a casa tradicional da zona litoral central, consultar:
"Arquitectura Tradicional Portuguesa"
de Fernando Galhano , Ernesto Veiga De Oliveira
Dom Quixote, edição 2000