sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Pintar com Cal (I)


Foto: São João da Pesqueira
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A grande diversidade arquitectónica do Alto-Douro implica o recurso a diferentes e multi-coloridos revestimentos de fachada. Associado ao tabique temos a telha, a chapa zincada e os soletos de ardósia. As fachadas, principalmente ao nível do rés-do-chão, podem surgir ainda com a pedra à vista.
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Longe da globalizada utilização que lhe é dada no sul do país, a pintura a cal contudo não deixa de assumir uma grande importância na região alto-duriense, contribuindo para a diversidade arquitectónica:
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· Sobre um fundo rebocado, a cal ocupa praticamente todas as fachadas de igrejas, capelas e casas nobres, contribuindo desta forma para destacar o granito dos cunhais e guarnições de portas e janelas;
· Não raras vezes a pedra é directamente caiada, criando uma textura com um excepcional efeito decorativo;
· O próprio tabique com que são construídas muitas das paredes exteriores do primeiro andar surge por vezes rebocado e caiado;
· Nalguns casos os telhados são caiados integralmente ou apenas em faixas, demarcando a estrutura de madeira que os suporta, permitindo desta forma percorrê-los de forma mais segura aquando das reparações. A cal desinfecta e favorece o arrefecimento da casa no verão;
· À imagem da quinta duriense associa-se o branco ou o ocre das suas paredes, sendo que o ocre não passa de cal combinada com um pigmento ferroso;
· Assumindo uma posição de destaque sobre um fundo caiado, visível por vezes na encosta a diversos quilómetros de distância, integrado na fachada de um dos edifícios ou num dos seus muros, surge frequentemente escrita em letras garrafais a denominação da quinta que se observa.
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No Douro, a mistura das cascas das uvas após a sua retirada do lagar, na altura da hidratação da cal, dota a Cal de uma cor fortemente escura, vermelha tinta, que após a decantação, produz ora uma argamassa ora uma tinta de caiação de cor púrpura. Talvez seja essa a origem da cor do belo edifício púrpura, na Praça da Republica - S. João Pesqueira, ou mesmo do antigo edifício da Real Companhia Velha, na cidade do Peso da Régua.

Rafael Carvalho / Fev2008