terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Arquitectura vernácula alto-duriense


Foto: Granja do Tedo - Tabuaço
Relativamente à Arquitectura Vernácula, não existe no Alto-Douro um modelo arquitectónico único. Subsiste na região a influência e por vezes a síntese de diversos modelos arquitectónicos oriundos da Beira, de Trás-os-Montes e do Douro Litoral.

No povoado, a casa que mais facilmente se identifica com a região alto-duriense possui normalmente dois andares, por vezes mais, sendo o último construído em tabique, característica relevante e marcante desta zona.

O rés-do-chão é ocupado pela adega bem como armazém, nomeadamente de produtos agrícolas, alfaias e lenha. Outrora o rés-do-chão também servia de estábulo aos animais. Para além da porta de acesso ao exterior, a existirem outras aberturas não passarão de postigos ou frechas, normalmente gradeados, ora abertos ora fechados por uma portada interior de madeira. Dado o fácil arejamento, não raras vezes se solta para exterior do edifício o odor a vinho, bastante perfumado se for generoso. Curioso é o facto de com alguma frequência as molduras esquerda e direita das portas serem talhadas lateralmente em arco para permitem a movimentação dos tonéis do vinho. Alternando entre o xisto e o granito, os materiais utilizados na construção do primeiro piso dependem dos recursos do solo e da situação económica do seu proprietário, sendo o perpianho de granito a elite dos materiais. Independentemente da litologia local, as casas mais ricas ostentam sempre cantarias de granito, pelo menos nos cunhais e nos caixilhos das portas e janelas, procedendo-se à sua importação, se necessário, das terras vizinhas. Nestas casas nobres ou burguesas, bem como em muitas construções religiosas, a restante fachada poderá ser rebocada e caiada. Onde nas imediações só existe xisto, as habitações mais modestas poderão utilizá-lo em regime de exclusividade, ficando à vista ou caiado a branco. A alvenaria tanto pode ser de junta seca como poderá usar barro ou argamassa de cal na ligação das pedras.

O acesso ao primeiro andar, destinado à habitação, é feito muitas das vezes por uma escada exterior, saliente ou não, culminando num alpendre ou varanda. Outras vezes, com o mesmo objectivo, é usada uma escada interior.

Relativamente aos restantes modelos arquitectónicos do norte do país, o primeiro andar em tabique é o responsável pela diversidade, mimo, delicadeza, leveza, pormenor e calor que verdadeiramente torna distinta a arquitectura tradicional do Alto-Douro. O tabique, em sistema de fasquio, usado quer na construção das paredes interiores, quer na construção de paredes exteriores e trapeiras, consiste na construção de uma estrutura com tábuas e ripas de madeira, em rede, posteriormente rebocada e caiada, normalmente de branco. No caso das paredes exteriores, é frequente o tabique apresentar-se protegido por escamas ou placas rectangulares de ardósia. O tabique pode ainda ser revestido com chapa zincada pintada com cores berrantes ou, mais raramente, com telha cerâmica. Apoiado nas traves do soalho, em varões oblíquos de ferro ou madeira encastrados na parede, ou em pilares de pedra, a leveza do tabique permite que o primeiro andar possa surgir em ressalto sobre as paredes do rés-do-chão. Com a existência de “casas-túnel” e passadiços, a delicadeza do tabique facilita a articulação entre os domínios privado e público. Quanto às varandas, normalmente de madeira e cobertas pelo telhado normal da casa, existem de diversos tipos: envidraçadas; salientes; recuadas; centradas ou não na fachada; ao serviço de uma ou duas frentes; com os topos abertos ou fechados. A varanda é encarada não como um mero elemento decorativo, mas antes como um prolongamento da casa para o exterior, necessário às actividades e ocupações da família. Nela se põe a roupa a secar e se secam os frutos, se dependuram as cebolas e se pousam as abóboras. É na varanda que durante o dia se aproveita o sol para no Inverno aquecer o corpo ou fazer serão na época de Verão. É na varanda que o velho espera a morte e a dona de casa remenda a roupa e parte as couves para o caldo. Atingindo o seu expoente máximo na Vila de Ucanha, as varandas, arestas, portas e janelas e respectivas guarnições em madeira são pintadas com cores berrantes, dizem que para afastar as más influências. As janelas são quase sempre de guilhotina, com portada interior de duas folhas, por vezes lateralmente ornamentadas com poiais em pedra para a colocação de vasos. Ainda subsistem alguns exemplares de casas sem vidraça na janela, sendo a portada interior o único meio de defesa contra a hostilidade exterior. Por vezes encontram-se situações intermédias, onde um pequeno postigo em vidro é inserido na própria portada.

Possivelmente o tipo de cobertura mais antigo, há muito desaparecido, era o colmo, remontando a sua origem aos castros, uma vez que a telha só apareceu, entre nós, depois da romanização. Os telhados de lousa também já desapareceram. Actualmente as telhas que revestem os telhados são de barro. Há-as de “canudo”, também chamadas de “meia-cana”, “mouriscas” ou “portuguesas” e empregam-se há séculos. De aplicação mais recente é a telha “lusa”, evolução da anterior. É uma telha dupla formando canal e cobertor. Com origem no sul de França, casas existem que possuem a telha “marselha”, introduzida no nosso país na segunda metade do século XIX. Os telhados são normalmente de quatro águas. Porém, também os há de duas ou mesmo de uma só água, normalmente em construções mais modestas, como as dependências agrícolas. As telhas do beiral tanto podem assentar directamente sobre a parede da casa, como sobre os caibros salientes em madeira. Estes remates são elementos bastante característicos dos edifícios, fazendo também parte da decoração da fachada. Nalguns casos, os telhados são caiados integralmente ou apenas em faixas, demarcando a estrutura de madeira que os suporta, permitindo desta forma percorrê-los de forma mais segura aquando das reparações. A cal desinfecta e favorece o arrefecimento da casa no verão. Por forma a poder albergar todo o generoso e defumado recheio, por vezes do telhado sobressai a chaminé, generosa em dimensão,. Sendo construída em tabique é revestida ora em chapa, ora em escamas de lousa, sendo encimada por uma raposa metálica (caneleira larga com aba, em ferro, que cobre toda a boca da chaminé). Em habitações mais rudes por vezes a chaminé está ausente, escoando-se o fumo por entre as telhas ou, quanto muito, por pequenas trapeiras nos telhados conseguidas com o alteamento de algumas telhas.

A fina arquitectura alto-duriense, que tem por base o tabique, coabita com outros espécimes de características mais rudes, com paredes exteriores (R/C e andar) integralmente construídas em xisto e/ou granito, onde o tabique está ausente. Curioso é o facto de por vezes surgirem espécimes de transição, onde apenas uma parede ou parte de uma das paredes do primeiro andar é feita de tabique.

De arquitectura geralmente simples e eminentemente funcional, a quinta duriense, caiada de branco ou ocre, integra a casa de habitação do proprietário bem como outros edifícios de apoio à actividade produtiva – casa do caseiro, armazéns e cardenhos para alojar os trabalhadores temporários, na altura da vindima. Muitas das vezes, os armazéns e as oficinas vinárias, são dispostas em cascata, aproveitando a topografia do terreno e a acção da gravidade para ajudar no processo da produção de vinho. A quinta pode ainda integrar uma capela particular, seguramente o local mais cuidado da propriedade. Dependendo do poder financeiro dos donos, a casa de habitação do proprietário não tem uma arquitectura tipificada. Porém, normalmente organiza-se numa planta rectangular ou em L. Como se trata de uma região de desníveis bruscos, são frequentes as casas em que, nas traseiras, o andar superior fica também ao nível do rés-do-chão. Enquanto o sobrado, marcado por um corredor central, serve de habitação, os baixos são destinados à adega. Como marca de poder, junto à casa poderá existir um jardim formal, de onde sobressaiem algumas palmeiras e/ou ciprestes. Assumindo uma posição de destaque sobre um fundo caiado, visível por vezes na encosta a diversos quilómetros de distância, integrado na fachada de um dos edifícios ou num dos seus muros, surge frequentemente escrita em letras garrafais a denominação da quinta.

Rafael Carvalho / Jan2008




Bibliografia
· Almeida, Carlos de - Portugal arquitectura e sociedade, Ed. terra livre, Lisboa 1978
· Oliveira, Ernesto Veiga e Galhano, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa, Publicações D. Quixote, 2000
· Lino, Raul -casas portuguesas (alguns apontamentos sobre o arquitectar das casas simples), Ed. cotovia, 1992
· Moutinho, Mário - A arquitectura popular portuguesa Ed. estampa, lisboa1979
· Arquitectura popular em Portugal, Associação dos Arquitectos Portugueses, 2003
· Alto Douro Vinhateiro – Documento de Candidatura a Património Mundial

3 comentários:

Paulo J. Mendes disse...

Parabéns pelos textos, imagens e explicações, de inestimável valor para quem sente curiosidade e interesse pela arquitectura tradicional.
Acabei de descobrir este blogue por acaso, mas doravante serei visitante assíduo.
Os meus votos de um bom 2008, e continuação de bom trabalho.

Rafael Carvalho disse...

Caro Paulo Mendes:
Felicito-o por ter tido a paciência de ler os meus apontamentos.
Uma consulta ao seu blog

http://estadevelho.blogspot.com/

permite verificar que efectivamente temos muitos pontos de interesse em comum.

Bem haja, Bom 2008.

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